Ricardo Massola, MSc
Mestre em Qualidade de Vida, Saúde Coletiva e Atividade Física - UNICAMP
Pós-Graduado em Gestão da Qualidade de Vida na Empresa - UNICAMP
Palestrante, Filósofo, Consultor de Empresas

1. INTRODUÇÃO

Muito se fala em Qualidade de Vida nos dias de hoje. Essa expressão tornou-se a busca incansável de pessoas que vivenciam a correria do dia-a-dia, o estresse, a falta de tempo para o lazer e para a família, os problemas de saúde e todas as outras situações que causam desconforto e insatisfação. Aproveitando-se dessa situação, o termo “Qualidade de Vida” tem sido usado e explorado por diversos setores com diversos interesses. Com isso, vemos a expressão “Qualidade de Vida” estampada em todos os lugares, como um “guarda-chuva” que tudo pode significar e em que tudo pode se pendurar. Entretanto, grandes centros de pesquisa, universidades e as mais importantes organizações internacionais se empenham para mostrar o que “Qualidade de Vida” realmente significa e quais os principais passos para que possamos alcançá-la.


2. DEFINIÇÃO

Um grupo de pesquisadores de diversos países, reunidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), discutiram a seguinte pergunta: “O que é Qualidade de Vida?”. Assim, puderam reunir o que existe de mais significativo na vida das pessoas e as atitudes e situações que mais atuam no seu bem-estar. Partindo do pressuposto de que saúde é o completo bem-estar físico, psíquico e social, observaram que a Qualidade de Vida tem aspectos subjetivos (bem-estar, felicidade, amor, prazer, realização pessoal, entre outros) e aspectos objetivos (renda, escolaridade, e todos os fatores relacionados ao desenvolvimento econômico e social). Começaram, assim, a sistematizar um conceito, em que os aspectos subjetivos têm relação com nosso estilo de vida (se fuma ou não, se alimenta-se de forma saudável, se faz exercícios, etc.) e os aspectos objetivos tem relação com as condições de vida (renda, local onde mora, se tem acesso à educação, etc.).
Além de sua subjetividade, a Qualidade de Vida possui um aspecto multidimensional (como as dimensões físicas, psicológicas e sociais) e possui dimensões positivas (por exemplo, a mobilidade) e negativas (por exemplo, a dor).


3. O CONCEITO

Segundo a OMS, Qualidade de Vida é "a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações". Nos diz que a Qualidade de Vida pode variar de acordo com a cultura da pessoa, e que irá variar para cada um, dependendo de seus objetivos e suas expectativas. Observaram, também, que alguns aspectos são comuns e universais, como o bem-estar físico, psicológico, relações sociais, o ambiente, o nível de independência e as crenças pessoais ou religiosidade. A estes seis itens deram o nome de “domínios”, ou seja, são os principais aspectos que determinam a Qualidade de Vida de uma pessoa.
Cada um destes domínios possui suas características. No caso do domínio Físico, o que determina nossa Qualidade de Vida seria a existência ou não de dor e desconforto, a energia e a fadiga, e a qualidade de nosso sono e repouso. Já no domínio Psicológico, os itens importantes seriam os sentimentos positivos e negativos, a auto-estima, a imagem corporal e aparência, e os aspectos cognitivos, como pensar, aprender, memória e concentração. A esses subitens ou subdomínios, damos o nome de “facetas”.
No domínio Nível de Independência, ressalta-se a importância da capacidade de trabalho, da mobilidade, de manter-se apto para as atividades da vida cotidiana, o dos prejuízos da dependência de medicamentos. As relações pessoais, o suporte ou apoio social e a vida sexual são itens importantes para a Qualidade de Vida e que estão inseridos no domínio das Relações Sociais. O domínio do Ambiente inclui a segurança física e proteção, o ambiente no lar, os recursos financeiros, a disponibilidade e qualidade dos serviços de saúde, o transporte, a oportunidade de lazer e aspectos do ambiente físico, como ruído, poluição, trânsito e clima. Por último, temos o domínio dos aspectos espirituais, religião e crenças pessoais, que influenciam as perspectivas e objetivos de uma pessoa, trabalhando, assim, com sua Qualidade de Vida.

 
Domínios e facetas da Qualidade de Vida, segundo a OMS

 
Domínio I - Domínio Físico       

1. Dor e desconforto        
2. Energia e fadiga        
3. Sono e repouso        
        
Domínio II - Domínio Psicológico       

4. Sentimentos positivos        
5. Pensar, aprender, memória, concentração        
6. Auto-estima        
7. Imagem corporal e aparência       
8. Sentimentos negativos        
        
Domínio III - Nível de Independência       
 

9. Mobilidade        
10. Atividades da vida cotidiana       
11. Dependência de medicação ou de tratamentos       
12. Capacidade  de trabalho       
        
Domínio IV - Relações Sociais       

13. Relações pessoais        
14. Suporte (apoio) social       
15. Atividade sexual         
       
Domínio V - Ambiente       

16. Segurança física e proteção       
17. Ambiente no lar        
18. Recursos financeiros        
19. Cuidados de saúde        
20. Novas  informações e habilidades       
21. Recreação e lazer        
22. Ambiente físico        
23. Transporte         
        
Domínio VI - Aspectos Espirituais/religião/crenças pessoais       

24. Espiritualidade/religião/crenças pessoais    


4. Breve explicação sobre as facetas da Qualidade de Vida


DOR: Capacidade em controlar a dor. Supõe-se que quanto mais fácil for aliviar a dor, melhor é a QV. As pessoas têm reações diferentes frente a dor, diferenças em tolerância e aceitação da dor influenciam QV.

ENERGIA E FADIGA: Exploram a energia, o entusiasmo e a resistência para as atividades diárias. Englobam o cansaço incapacitante e suas várias conseqüências, como enfermidades, depressão e esforço excessivo.

SONO E REPOUSO: Problemas com o sono de qualquer razão (insônia, acordar muito cedo sem precisar, acordar no meio da noite, etc.) em um sono não reparador. Medicamentos para dormir estão em outra questão.


SENTIMENTOS POSITIVOS: até que ponto uma pessoa experimenta sensações positivas de satisfação, equilíbrio, paz, felicidade, alegria, esperança e as idéias sobre o futuro.

PENSAR, APRENDER, MEMÓRIA, CONCENTRAÇÃO: referente aos aspectos cognitivos de uma pessoa.

AUTO-ESTIMA: sentimento da pessoa com relação à si mesma. Sensação de seu valor frente à diversos âmbitos de sua vida.

IMAGEM CORPORAL E APARÊNCIA: Se a pessoa vê seu corpo de forma positiva ou negativa.

SENTIMENTOS NEGATIVOS: O quanto a pessoa sente tristeza, ansiedade e falta de prazer com a vida.

MOBILIDADE: A capacidade que a pessoa tem de mover-se de um lugar para o outro.

ATIVIDADE DA VIDA COTIDIANA: Capacidade da pessoa de realizar as atividades que devem ser feitas todos os dias, como cuidar de si mesma e de sua casa.

DEPENDÊNCIA DE MEDICAÇÃO OU DE TRATAMENTOS: dependência da pessoa com medicação ou tratamentos para respaldar seu bem-estar físico ou psicológico.

CAPACIDADE DE TRABALHO: o quanto a pessoa se sente apta e capaz para trabalhar.

RELAÇÕES POSSOAIS: Até que ponto os indivíduos sentem a companhia, o amor e o apoio que desejam das pessoas próximas à sua vida.

SUPORTE (APOIO) SOCIAL: até que ponto a pessoa sente o compromisso, a aprovação e a disponibilidade de assistência prática por parte de suas famílias e seus amigos. Até que ponto famílias e amigos compartilham responsabilidades e trabalham em comum para resolver os problemas pessoais e familiares e até que ponto poderia contar com eles em momentos de crise.

ATIVIDADE SEXUAL: refere-se ao impulso e desejo sexual, a expressão e a satisfação sexual.

SEGURANÇA FÍSICA E PROTEÇÃO: A sensação de segurança de uma pessoa com relação a um dano físico. Refere-se à sensação de liberdade.

AMBIENTE NO LAR: A forma com que o local que a pessoa mora repercute em sua vida e sua satisfação com esse local.

RECURSOS FINANCEIROS: avalia a sensação de que os recursos que têm são suficientes, de ser dependente ou independente financeiramente.

CUIDADOS DE SAÚDE: Satisfação com o acesso aos serviços de saúde e a qualidade e facilidade para recebê-lo caso necessite.

NOVAS INFORMAÇÕES E HABILIDADES: oportunidade de adquirir novas informações e habilidades e de estar em contato com as informações atuais. Para muitos, é importante estar em contato com os acontecimentos à sua volta.

RECREAÇÃO E LAZER: em que medida a pessoa pode participar de atividades de lazer

AMBIENTE FÍSICO: ruído, poluição, estética, clima, etc.e se isso ajuda ou piora a sua qualidade de vida.

TRANSPORTE: opinião da pessoa sobre a disponibilidade e facilidade para encontrar e utilizar serviços de transporte

ESPIRITUALIDADE: ajudam a afrontar as dificuldades da vida, fonte de consolo, bem-estar, segurança e sentido.



5. COMO MEDIMOS A QUALIDADE DE VIDA?

Juntamente com a definição de Qualidade de Vida, a OMS buscou uma forma de medi-la, de maneira que esta medição pudesse ser aplicada em diferentes países, em diferentes culturas. Quinze centros estiveram envolvidos nesta etapa: Melbourne (Austrália), Zagreb (Croácia), Paris (França), Nova Delhi (Índia), Madras (Índia), Beer-Sheeva (Israel), Tóquio (Japão), Tilburg (Holanda), Panamá (Panamá), São Petersburgo (Rússia), Barcelona (Espanha), Bangkok (Tailândia), Bath (Reino Unido), Seattle (EUA), Harare (Zimbabwe).
Nestes grupos foram discutidos de que forma cada faceta interferia com a sua qualidade de vida e qual a melhor forma de perguntar sobre cada uma das facetas. As sugestões provenientes de todos os centros foram reunidas, perfazendo aproximadamente 1800 questões. Após a supressão das questões redundantes, semanticamente equivalentes ou que não preenchiam os critérios definidos, restaram 1000 questões. A seguir, os investigadores principais de cada centro classificaram as questões por cada faceta de acordo com a pergunta "O quanto ela fornece informações sobre a qualidade de vida em sua cultura". A combinação da classificação das perguntas de todos os centros permitiu que 235 questões fossem selecionadas.
A esse questionário, a OMS chamou de WHOQOL (abreviação para World Health Organization Quality of Life). O instrumento piloto do WHOQOL tinha 235 questões que avaliavam 29 facetas de qualidade de vida. O testagem deste instrumento envolveu a aplicação em 250 pacientes e 50 pessoas normais em 15 centros (n=4500). O plano de análise destes dados visavam a examinar a validade do questionário e das facetas e domínios do WHOQOL, a selecionar as melhores questões para cada faceta e a estabelecer a consistência interna e validade discriminante do instrumento.
Ao final de toda a seleção, 100 questões foram selecionadas, com 6 domínios e 24 facetas. A OMS chamou a este questionário de WHOQOL-100. Uma outra versão abreviada também foi preparada, chamada de WHOQOL-Brief.